O Barro e a Cola
Uma reflexão sobre a fadiga de se reconstruir incessantemente em um mundo que insiste em me quebrar
Eu estava revirando um arquivo que continha todos os textos que escrevi esse ano em busca de um texto específico, quando tropecei em algo que escrevi no dia 10 de junho. Três dias. Apenas três dias antes do mundo desabar sobre mim pela terceira vez. Antes que um homem decidisse, mais uma vez, refazer à força as fronteiras do meu corpo.
Desde o início do ano, eu comecei a escrever sobre o trauma de ter sido estuprada em 2017, trazendo tanto detalhes que eu nunca tinha falado sobre, como também análises dos meus sentimentos para além do fato em si. Quanto mais eu falo sobre esse cadáver de 2017, mais certeza eu tenho que seus ossos se ligam a outro esqueleto, mais antigo e enterrado ainda mais fundo. Os pesadelos que começaram logo após o trauma, visões de uma criança sendo violentada num sofá velho, não eram simples pesadelos – eram fantasmas de um crime que meu corpo lembrou antes da minha mente, um grito abafado no porão da minha consciência.
Não foi a primeira vez que eu lidei com isso na terapia. Já carregava aquela conversa há anos, como se carrega uma pedra no bolso. Mas em setembro do ano passado, eu comecei a terapia com uma nova psicóloga – alguém que me fez sentir muito mais segura, acolhida e pronta para falar sobre isso. E o irônico é que parte dessa segurança vem do fato de que ela não tem pressa, não trabalha com um prazo estabelecido para que eu me sinta bem. E naquele espaço de segurança, eu finalmente comecei a desembrulhar os pacotes que guardava com tanto cuidado, aqueles embrulhos amarrados com o fio da vergonha e do segredo. Foi como abrir as janelas de uma casa fechada há décadas: doía nos olhos, o ar era poeirento, mas era catártico. Pela primeira vez, eu sentia que aquele trauma não me dominava; ele era uma paisagem que eu podia, finalmente, olhar de frente sem desabar. Eu sabia que a dor não iria embora — algumas dores são como sombras, tornam-se parte da sua forma —, mas eu conseguia respirar dentro dela. O passado começava a parecer apenas passado.
E então, no dia 10 de junho, a estranha sensação de bem-estar. Escrevi sobre o alívio de não querer morrer. Sobre estar lutando contra uma vida inteira de me “dobrar para caber na narrativa do outro”. Escrevi, com um misto de espanto e orgulho: “Ser quem sou tem suas delícias e seus perrengues — e isso me faz bem.”
Não era felicidade ingênua. Era a conquista áspera de quem aprendeu, depois de anos no escuro, a trocar a lâmina pela palavra. Era a sensação rara de estar lidando com a própria vida de um jeito que não a transformava em um fardo insuportável.
Três dias depois, o universo — ou Deus, ou o acaso cego — pregou sua peça de humor mais sádica. Um homem me estuprou pela terceira vez.
Eu senti que não havia sido “apenas” mais uma violência – mas um recado. Um golpe calculado para atingir não só o meu corpo, mas o alicerce que eu tão cuidadosamente reconstruía. Parecia uma mensagem clara: “Olhe para o seu progresso. Olhe para a sua coragem. Agora veja como tudo isso é frágil, como é inútil.”
O chão sumiu. O sentido evaporou. Acordar de manhã tornou-se um ato de força bruta contra a gravidade do desespero. Eu não via um futuro, via um castigo. A vida, que finalmente começava a fazer um ruído que se assemelhava a uma melodia, calou-se novamente, deixando apenas o eco de uma pergunta: por que insistir, se o universo insiste em me quebrar?
Eles falam de resiliência como se fosse uma virtude. Como se eu tivesse escolhido ser um vaso quebrado e colado tantas vezes que já não se sabe qual é o barro original e qual é a cola. A verdade é que cansa. Cansa ser fênix sem a glória da ascensão, só a cinza que se repete. Cada vez que me levanto, não é com a força do guerreiro, mas com o tremor de quem já caiu demais e sabe que o chão é o lugar mais familiar.
Minha vida virou um arquivo de ‘antes e depois’. Antes do primeiro homem. Antes do segundo. Antes do terceiro. E agora, quantos “eus” eu enterrei? Quantas meninas eu deixei para trás na beira da estrada, assinando a certidão de óbito com minhas próprias mãos trêmulas? Reconstruir não me parece um ato de coragem, está mais para uma sentença. A sentença de ter que carregar todas as minhas próprias mortes e ainda assim ser cobrada para parecer viva.

